Fator-chave para a mobilidade elétrica: Qual é o “ponto ideal” para o sucesso no mercado português?

Entrevista da Mobility Portal Europe à Ecoinside

De acordo com a Ecoinside, um em cada quatro veículos registados em Portugal já é elétrico, o que realça a necessidade de expandir a infraestrutura de carregamento e apresenta uma oportunidade significativa para os operadores de pontos de carregamento (OPCs). No entanto, este crescimento também traz uma série de desafios para o setor de mobilidade elétrica. Quais são?

O mercado português de mobilidade elétrica continua a progredir, com 7.211 novos veículos elétricos (VE) registados nos primeiros dois meses de 2025, refletindo um aumento de 26,8% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

“Em janeiro e fevereiro, 25% dos carros vendidos eram 100% elétricos, o que significa que um em cada quatro veículos novos já é elétrico”, afirma António Cunha Pereira, co-CEO da Ecoinside, ao Mobility Portal Europe.

Onde acrescenta: “Isto traduz-se em mais de 500 VE a entrar no mercado todos os meses.”

Então, o que é que o mercado português precisa?

De acordo com o especialista, o principal desafio que se coloca atualmente é a necessidade de aumentar o número de pontos de carregamento públicos para responder ao rápido crescimento da frota de VEs.

De acordo com os dados da MOBI.E, em média, existem 90 tomadas a cada 100 quilómetros de estrada e 122 tomadas a cada 100.000 habitantes. No final de fevereiro, a rede pública de carregamento contava com 5.976 estações, correspondendo a 11.083 pontos (tomadas que podem carregar simultaneamente). Além disso, foram registados cerca de 580.000 carregamentos, o que representa um aumento de 45% em comparação com o mesmo mês do ano passado. Isto retrata uma oportunidade para os operadores de pontos de carregamento (OPCs) que pretendem entrar no mercado português.

“Os pontos de carregamento públicos são uma necessidade urgente, pois muitos proprietários de VE não conseguem carregá-los em casa”, explica o representante da Ecoinside.

António Cunha Pereira (ACP) explica que isso acontece porque vivem em edifícios sem infraestrutura elétrica suficiente para instalar carregadores.

Neste contexto, o constrangimento está na infraestrutura energética. A rede elétrica começa a mostrar sinais de saturação, especialmente em áreas de alta procura ou em projetos que exigem carregamento rápido ou ultrarrápido. “A capacidade da infraestrutura para gerir este enorme crescimento na procura de energia será o maior desafio”, alerta Cunha Pereira.

ACP acrescenta: “A situação torna-se ainda mais complicada no caso de carregadores rápidos ou ultrarrápidos, que exigem uma potência de 200 quilowatts ou mais.”

A potência necessária para permitir carregadores rápidos e ultrarrápidos (até 800 quilowatts) não está disponível em todos os locais.

De facto, o processo de ligação à rede pode levar até três anos no caso de média tensão.

Para baixa tensão, a espera ronda cerca de um ano.

Embora os prazos em Portugal tenham melhorado recentemente — há dois anos, demorava entre dois a três anos — os prazos continuam a limitar a expansão de novos postos de carregamento.

De acordo com um especialista consultado pelo Mobility Portal Europe, em muitos casos, o investimento em infraestrutura pode tornar-se inviável se a rede de média tensão estiver demasiado distante.

Porquê?

Se a ligação à linha de média tensão estiver longe do local onde os carregadores vão ser instalados, a construção da linha necessária pode acarretar custos elevados. Este custo adicional pode dificultar a recuperação do investimento ao longo de um contrato de 15 ou 20 anos.

“Haverá uma altura em que, apesar da vontade de instalar mais carregadores públicos, a capacidade da rede elétrica será um obstáculo, e não será possível ligar grandes quantidades de energia a todos os locais onde será necessária”, indica Cunha Pereira.
De acordo com o co-CEO da Ecoinside, embora seja impossível prever com exatidão quando é que isto vai acontecer, este problema também está presente no setor fotovoltaico.

ACP sublinha “Para resolver este problema, serão necessários investimentos de vários milhões de euros para modernizar e reforçar as infraestruturas eléctricas por todo o país”.

E não é tudo. A utilização do espaço público é outra fonte de conflito.

Em cidades com alta densidade de serviços e atividades comerciais, a concorrência pelo uso do solo intensifica-se.
“Em zonas com restaurantes, se os lugares de estacionamento forem exclusivamente atribuído para carregamento de VEs, podem surgir conflitos com pessoas que simplesmente querem estacionar para ir comer”, remata.

Cunha Pereira clarifica que a regulamentação em Portugal é bastante rigorosa, o que pode dificultar a expansão do setor.

O que propõe ACP?

“O ideal seria que o processo fosse mais simples, permitindo aos condutores chegarem a uma estação de carregamento, ligar o veículo, pagar com cartão de crédito ou qualquer outro meio de pagamento e continuar a viagem”, sugere.

No entanto, refere que atualmente existem demasiadas entidades envolvidas na gestão da informação, “o que complica as operações”.

Quais são as oportunidades para o setor de mobilidade elétrica em Portugal?

 

Nos locais onde a Ecoinside opera, a procura quase duplicou quando se compara o início de 2024 com os primeiros dois meses de 2025.

“O aumento da utilização dos carregadores é evidente e, com 25% dos carros novos a serem 100% elétricos, espera-se que a procura continue a crescer”, afirma.

Espera-se também que o Governo lance um programa de incentivo à compra de VEs. Este incentivo concederá um subsídio de 4.000 euros para a aquisição de um veículo novo, desde que o comprador entregue um veículo com motor de combustão interna com mais de 10 anos.

Graças a esta medida, para além das pessoas que já estão a comprar VEs, haverá um grupo adicional a aproveitar este subsídio. “É provável que a quota de mercado dos VE, atualmente de 25%, aumente para 30% ou mesmo 35%”, garante.

ACP reforça “O mercado da mobilidade elétrica está num ponto chave de expansão, e acreditamos que entrámos no setor no momento ideal.”

Neste ponto, vale a pena notar que a Ecoinside está a operar no sector da mobilidade eléctrica desde 2021. Neste contexto, destaca que recentemente uma empresa com mais experiência no mercado contactou a Ecoinside para oferecer a venda dos seus pontos de carregamento.

Neste contexto, o Cunha Pereira salienta que, recentemente, uma empresa com maior experiência no mercado o contactou com uma proposta de venda dos seus postos de carregamento.

“Provavelmente fizeram investimentos a longo prazo sem ainda obterem o retorno esperado”, remata.

António Cunha Pereira, conclui: “Isto reforça a nossa convicção de que fizemos uma boa análise do ponto ideal para entrar neste sector”. 

 

Inés Platini | Mobility Portal Europe

 

FONTE:

Mobility Portal Europe

 

 

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